
Então ela sente que sua vida é como um conto que não passou da segunda linha, um sonho fabuloso repetidas vezes interrompido, uma religião falida. Metodicamente cumprindo seus deveres de mulher e mãe... Catastroficamente esposa e amiga. A rainha do lar eternamente escrava do seu oficio de ser santa e amante; vivendo sempre no limite, permanecendo ali por livre e espontânea vontade alheia.
Sentada a beira da cama, contemplado o seu homem e marido morrer, ela recorda dos seus sonhos de cinderela, de professora formada, de estrela do jazz. Lembrou-se também da tirania do pai, do matrimonio forçado, o marido extremamente bondoso e desinteressante, dos filhos exigentes e indesejados. Pensou com amargura em si mesma; na sua maldita alma pequena e fraca, fraquíssima!Apertou as unhas contra as mãos com um terrível ódio por nunca ter feito nada de substancial para se livrar daquelas amarras.
O marido murmura frases ilógicas, os filhos choram e ela mantém os olhos baixos (como fez a vida toda,metodicamente).Quantas e quantas vezes ,quando estavam todos reunidos em momentos felizes elas desejou que o marido e os filhos tivessem uma coisa qualquer,um mal súbito.Olhando os olhos fundos do marido ela planeja os prantos de viúva,os olhares languidos de mulher inconsolável.O gemido final aconteceu e ela jogou-se sobre o corpo dele,mas não era tristeza e sim agradecimento por enfim chegar o ápice da grande peça,o momento triunfal da atriz.
A musa inglória de tantos atos penosos, a infeliz e diabólica sob o vestido de outra. Nunca mais imutável, nunca mais infeliz; finalmente tem o poder da solidão em suas mãos,mas o que fazer com esse poder?O que afinal ela iria fazer com essa tal liberdade?
Assustou-se quando se encontrou só na casa,sem os filhos que nunca quis e sem o marido que nunca amou;não tinha mais contra quem praguejar!Desejou durante anos e agora ela percebe que o que a mantinha viva era a ‘possibilidade’ e não o ‘fato’.




