domingo, 7 de fevereiro de 2010

Clarice por Caio


Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - “Fica comigo.” Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim – teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu

Caio Fernando Abreu .

(Do livro de cartas de Caio F.A.)

*Carta destinada a escritora Hilda Hilst

domingo, 10 de janeiro de 2010

À noite...


Uma cidade grande
Uma noite colorida e chuvosa
Dois homens se apertam em uma esquina;
Não é briga, é paixão.
Buzinas a meia noite
Faz frio e as pessoas se aquecem umas com as outras.
Duas meninas se apertam em um canto escondido de um bar;
Não é briga,é paixão.
O asfalto brilha como as luzes da broadway
Gente alta,gente feia,gente bêbeda,gente pintada...
Dois cães rolam por uma calçada;
Não é briga,é paixão.
O homem caminha apressado
A moça caminha como nas nuvens
O vento corta,a chuva arrebata tudo
A treva é rainha
Eles se encontram,se encaram...
Assustados um com o outro,pensando tudo um do outro
Os olhos dela invadem os olhos dele e invadem todo o seu ser
Ele a despe lentamente...
Momento eterno
Não se tocam não se roçam.
A chuva aumenta, o vento aumenta, o frio aumenta
O corpo de um precisa urgentemente do corpo do outro
É instinto, entendem?
E eles se agarram, meu Deus, como se agarram!
Era um amor encabulado disfarçado de medo da chuva.
Na outra esquina os dois homens continuam a se amar, loucamente
No bar as duas moças, encobertas pela fumaça dos cigarros, se amam disfarçadamente
Na calçada os cães se amam
E a Noite segue sua sina de poetizar tudo isso.
Do outro lado da cidade
Onde não existem tantas luzes e a noite é excruciante
Um menino também ama...
Ele ama Betty Davis e suspira por ela.
No apartamento abaixo uma moça com ar tristonho
Assiste "juventude trasnviada".Em cena, james dean ;ela geme sob o edredom
Como se estivesse fazendo amor com ele.
A chuva cessa...
Na praça ainda com seus bustos e bancos molhados ,5 amigos,todos rapazes
Todos cavalheiros,declamam poesias,e lêem crônicas lindas de amor
E contraditoriamente suas canções são de escárnio...Não,não os julguemos.Eles são bonitos assim.
Uma mulher os observa e chora,porque tudo o que eles fazem ela pensa ser para ela.A dama
Trás sobre seu corpo e suas vestes as marcas de mais uma noite vexatória
O céu com seu colorido difuso anuncia que já raia um novo dia

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Coração bazar


Perdi o ritmo, perdi o tom certo do batom
Perdi o salto, o glamour e tudo mais
Perdi as caras e bocas, perdi as respostas prontas...
Perdi os palavrões dês deque ouvi você dizer
“Você não serve pra mim...”
Perdi a graça, o deboche
Fiquei estática da cabeça aos pés...
Olhei-te apavorada... Hoje, sozinha, me olho apavorada ao espelho
Caricatura triste, como convém a uma face lavada de pranto diário
Perdi o fôlego e nem gritar eu posso
Foi-se contigo o que em mim era tão essencial
Perdi os teus brilhos nos olhos
Tuas palavras tão meigas, tão charmosas...
Palavras tão falsas... Não importa, elas me fazem falta mesmo assim
Perdi as noites em claro e as manhãs vindouras.
Pense que mulher deprimente eu me tornei, meu bem
Mais um trago, mais uma dose, mais uma balada de fossa no radio... Solidão
O nosso futuro fruto que nunca veio...
“Você não serve para mim...”
Com um vestido de outra estação, cabelos ao vento
descalça, batom borrocado... Olheiras... Olhares de dó.
Persistir sem esperanças é escrever poesias.
Coração bazar!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Prece pela tolerância



"Não é mais aos homens que me dirijo. É à você, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos: Que os erros agarrados à nossa natureza não sejam motivo de nossas calamidades.

Você não nos deu coração para nos odiarmos nem mãos para nos enforcarmos. Faça com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida penosa e passageira.

Que as pequenas diferenças entre as vestimentas que cobrem nossos corpos, entre nossos costumes ridículos, entre nossas leis imperfeitas e nossas opiniões insensatas não sejam sinais de ódio e perseguição.

Que aqueles que acedem velas em pleno dia para te celebrar, suportem os que se contentam com a luz do sol.

Que os que cobrem suas roupas com um manto branco para dizer que é preciso te amar, não detestem os que dizem a mesma coisa sob um manto negro.

Que aqueles que dominam uma pequena parte desse mundo, e que possuem algum dinheiro, desfrutem sem orgulho do que chamam poder e riqueza e que os outros não os vejam com inveja, mesmo porque você sabe que não há nessas vaidades nem o que invejar nem do que se orgulhar.

Que eles tenham horror à tirania exercida sobre as almas, como também execrem os que exploram a força do trabalho. Se os flagelos da guerra são inevitáveis, não nos violentemos em nome da paz.

Que possam todos os homens se lembrar que eles são irmãos! "

( Voltaire )



2010 chegou.Vamos mudar o mundo,mas precisamos começar pelas pessoas que vemos todos os dias no espelho...



FELIZ ANO NOVO

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Poema do menino Jesus


Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como
uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer à Terra.
Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez
menino, a correr e a rolar-se pela erva
A arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a
ouvir-se de longe.
Ele tinha fugido do céu. Era nosso demais pra
fingir-se de Segunda pessoa da Trindade.
Um dia que DEUS estava dormindo e o Espírito Santo
andava a voar, Ele foi até a caixa dos milagres e
roubou três.
Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que
Ele tinha fugido; com o segundo Ele se criou
eternamente humano e menino; e com o terceiro Ele
criou um Cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado
na cruz que há no céu e serve de modelo às outras.
Depois Ele fugiu para o Sol e desceu pelo primeiro
raio que apanhou.
Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança
bonita, de riso natural.
Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças
d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece.
Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares,
e foge a chorar e a gritar dos cães.
Só porque sabe que elas não gostam, e toda gente acha
graça, Ele corre atrás das raparigas que levam as
bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia.
A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar
para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há
nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas
quando a gente as tem na mão e olha devagar para
elas.
Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo
que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois
com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas no
degrau da porta de casa. Graves, como convém a um DEUS
e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o Universo
e fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair
no chão.
Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos
homens. E Ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri
dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir
falar das guerras e dos comércios.
Depois Ele adormece e eu o levo no colo para dentro da
minha casa, deito-o na minha cama, despindo-o
lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo
materno até Ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de
noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de pena pro ar,
põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho,
sorrindo para os meus sonhos.
Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais
pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua
casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e
humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu
tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu
brincar.


(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Aos blogueiros,com carinho!


Eu, Rômulo, dono deste blog sou mais do que do que qualquer outra coisa um leitor.
Comecei a ler porque isso me parecia por num patamar superior com relação às outras pessoas; depois fui lendo porque meu mundo foi ficando pequeno e eu precisava viajar!
Hoje eu leio por um hábito tal qual escovar os dentes! E aqui na blogosfera eu me sinto no paraíso. Embora eu não seja um virtuoso blogueiro, passo horas lendo vocês. Tem muita coisa boa, muita mesmo. Encontrei aqui não apenas “blogueiros”, mas escritores de primeira linha,cronistas,poetas...E na maioria dos casos são pessoas jovens.
Tornei-me fã de cada um de vocês e de seus textos. Aproprio-me até muitas vezes de uma intimidade indevida,mas não se assustem,é coisa de fã mesmo!
Não sei o motivo, mas hoje acordei com essa necessidade de me por de pé render-lhes homenagens! Obrigadíssimo por existirem e por fazerem com suas obras de arte os meus dias mais bonitos, mais suaves...
Obrigado e parabéns aos escritores-crônistas-poetas do “Gole de idéias”,” Cranberry Sauce” ,”enfim! é o que tem pra hoje” ,”O Grande Edgar”,”Abrace sua loucura”,”PAPEL, CANETA, LETRAS”,”Pensamento Fascinante” ,”O equador das coisas”,”clandestina, FELICIDADE”,”SOMESENTIDO”,”um d-EU-s chamado Pedro”, “Relações Amorosas Explícitas”...E a tantos e tantos outros que eu sigo.Alguns desses eu sigo mudo;isso para citar alguns,mas a lista é bem maior,muito maior!
Aos que eu citei e aos que eu não citei: Vocês todos são lindos assim! Pensando, escrevendo... Fazendo-me feliz!
Continuarei a segui-los, mesmo que muitas vezes em silencio, emocionadamente como faz quem Le uma prece

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Objeto não identificado [ 2 ]


Sou casado com Drummond e mantenho um caso com Clarisse Lispector
E não raras vezes saio a farrear e me deleitar nos braços de Florbela Espanca
E Caio Fernando Abreu. E tudo isso sob o olhar atento e compreensivo do
Meu confidente Oscar Wilde.
Amo e odeio por hábito
Sou alegre por comodismo
E solitário para ter salvação
Danço sem acepção de ritmo
Na dança a entrega deve ser total
Não cabe timidez;
O corpo deve estremecer suar...
Dance sem medo, dance muito, dance ao extremo
Na dança o gozo é produzido na ponta dos pés
E transborda pelos poros de todo o seu corpo.
E por falar em gozo... Estar sexuado é o que importa
O gênero é apenas um acidente...
Às vezes fico assexuado. É importante para não virar escravo do sexo, porque o bom mesmo
É ser parceiro; e tomem nota: estar assexuado é apenas uma leve e rápida antipatia
Ao corpo alheio, nunca ao meu.
Me toco,me descubro e redescubro,re(verso)...
Cultivo amizades por ego e determino logo:
“Ok.pode ficar à-vontade na sala, deite e role, mas nos outros cômodos só quem me pode saber sou!”
No lugar de deuses eu cultuo poetas. É uma devoção grave e honesta.
É a forma mais eficaz em que ser humano dói menos.
E para seguir meu caminho eu peço a benção de vocês meus sacerdotes, meus padrinhos, meus santos loucos: ”Benção, meus escritores!”